Hoje, nesse momento, uma semana depois do lançamento, já não se fala mais tanto sobre a versão do filme da Liga da Justiça de Zack Snyder (que não é um Snyder Cut simplesmente porque isso nunca existiu em momento nenhum). Teve a Warner confirmando que o "Snyderverse" acabou (e os mesmos fãs que, exatamente como certas pessoas e grupos de pessoas fazem, viviam dizendo "quem eu? Eu não!" sobre alguns assuntos, e já afirmaram que não vão mais assistir a nenhum tipo de filme da Warner por isso), teve o fato de que se trata de um filme de 4h e quem pretendia assistir, seja lá por qual motivo, já assistiu – afinal, esse trombolho não é aquele tipo de coisa que cê olha no catálogo de um serviço de streaming e pensa "hmmmm taí. Não tenho nada pra fazer mesmo durante 1/6 do dia, vou dar play".

Quem assiste o faz porque pensa que tem alguma importância real na criação dessa versão, por motivos profissionais ou por curiosidade.‌‌‌‌ No meu caso foi mesmo isso de "vamo então ver o que é que o Zack Snyder tinha pensado", graças a qualquer coisa. E é dessa mesma curiosidade que nasce esse texto.‌‌‌‌


Vamos definir uma questão conceitual aqui: é impossível dizer que Liga da Justiça do Zack Snyder é melhor que a do Joss Whedon. Gostando ou não do que se viu no cinema, o que a gente tem aqui é uma peça de marketing de um serviço de streaming (ou eu prefiro acreditar que seja só isso, porque o outro motivo que eu enxergo eu prefiro nem sequer pensar na possibilidade de ser verdade).‌‌‌‌

Se fosse a versão dele que tivesse estreado no cinema, não seriam 4h de duração e a história não seria contada da mesma maneira, com a mesma estrutura. Com certeza rolaria uma versão do diretor em Blu-ray, ou mesmo no Streaming e é isso. Quase ninguém veria, quase ninguém falaria sobre -- aconteceu a mesmíssima coisa com Watchmen (a Ultimate Cut é REALMENTE boa), com Batman VS. Superman (continua ruim, mas a versão extendida é de fato melhor) e teria acontecido com Liga da Justiça. "Director's Cut" não costumam ser um sucesso assim tão grande.‌‌‌‌

Mas é o que temos: alguns anos depois, no meio de uma pandemia, um negócio de 4h de um cara que, uma vez que não pode finalizar seu trabalho, pelo menos teve a chance de brincar com os bonequinhos que ele deixou pra trás.‌‌‌‌

A maneira como a história desse troço é contada, a coisa de dedicar o tempo necessário pra contextualizar cada um dos heróis na história e juntar num filme só o que a Distinta Concorrência demorou anos e vários filmes pra conseguir AND ainda apresentar um vilão com uma motivação que fizesse algum sentido, tudo dividido em capítulos, só existe porque alguém disse "cara, faz o que você quiser", mesmo que não fizesse qualquer sentido ou tivesse qualquer razão. Mandou um Pix de mais $40 Milhões e é isso.

O formato 4:3 poderia servir numa tela gigantesca, já que daria uma sensação de verticalidade. Numa tela 16:9, literalmente onde as pessoas que não tem iPad ou projetor assistiram, a sensação é de que falta algo dos lados... MAS FODA-SE, ele quis assim (e isso, eu confesso, eu respeito). ‌‌‌‌Aquele epílogo... Pra quê? O filme tinha acabado e de um jeito bem ok, num esquema que botava um ponto final nisso tudo. Mas nãããão... precisava colocar o Superman como vilão, precisava voltar pra essa versão alternativa do universo que não serve pra nada porque foda-se, ele quis assim!‌‌‌‌

A gente sabe que o Flash é o José Gracejos daquela turma, não precisava roubar uma salsicha voadora antes de salvar a mocinha. Tá, tudo bem, talvez isso fosse engraçado... Se fosse só isso. O ~carinho que ele faz na menina é muito, mas muito, MUITO MESMO, creepy. Mas era o que ele queria, então...‌‌‌‌

Isso também é resultado de uma sensibilidade completamente torta, em que ele quer falar coisas legais mas não faz a menor ideia de como fazê-lo. Do "você pode ser quem você quiser" pra uma garotinha depois de um ataque terrorista e um homem sendo morto na sua frente ao outdoor sobre prevenção ao suicídio seguido da mensagem acolhedora "foda-se o mundo" na cena seguinte.‌‌‌‌Sem contar, claro, tudo o que ele fez com o Superman ao longo dos anos. 🙃‌‌‌‌


‌‌‌‌Um diretor de cinema que praticamente NUNCA consegue entregar um filme com sua visão real e/ou definitiva, sempre criando versões maiores e estruturalmente diferentes, tem algum problema enquanto diretor d cinema. Não dá pra dizer que ele é bom nisso que faz. Ponto. ‌‌‌‌Cinema é arte e, como toda arte, precisa de algum tipo de limitação -- um lugar, uma tela, ferramentas, enfim.

Ao escrever, por exemplo, uma das limitações em que eu acredito é a de "tá no papel, acabou". Depois de 20 anos escrevendo profissionalmente, eu faço questão de encerrar o assunto dentro do texto. Se faltar algo, prefiro escrever um novo a editar – e olha, eu fiz muito isso, lá no começo. "Ah, esqueci de falar de uma coisa", ia lá e editava. Não tá certo com quem leu sem aquilo, sabe? Era, mesmo, pra satisfazer a mim mesmo: eu esqueci, eu coloquei, ufa.

No caso da chamada sétima das artes, tecnologia é uma limitação. Conhece algum outro diretor medíocre que ficou atualizando seus filmes pra satisfazer a si próprio? Até o Spielberg caiu nessa, quando trocou armas por walkie talkies em uma versão de E.T - O Extraterrestre que, por sorte, não se tornou a "definitiva" (e ele não só se arrependeu como ainda relaçou a versão original em Blu-ray).‌‌‌‌

Outra limitação cinematográfica pode ser o tempo e, em sendo, se você não consegue contar sua história em um espaço considerado normal, tem algo de errado aí -- e eu nem digo isso como um entusiasta dos filmes de 1h30, não. Em O Irlandês, por exemplo, Scorsese usou o tempo quase como um personagem. Zack Snyder só fez essa versão de 4h porque ele queria falar e mostrar um mooooonte de coisa e deixaram. Ele (re)criou o seu Universo DC e ainda assim tem coisa pra caralho que a gente vê e ¯\_(ツ)_/¯.‌‌‌‌

Pra não ficar só reclamando, devo dizer aqui que gostei do Flash, num geral. Gostei também do novo Steppenwolf, ainda que a presença do Darkseid tenha sido um tanto inútil e pareça mais fanservice, daqueles bostas que só gente de caráter duvidoso gosta, mesmo. Mas sabe o que eu mais gostei, e que eu confesso que me doeu o coração? Mulher-Maravilha.‌‌‌‌

Calma, não me entenda mal se você chegou aqui e nunca viu nada do que eu já escrevi por aí. Eu amo o primeiro filme da Mulher-Maravilha. AMO. O coloco num potinho muito especial, de filmes que me fazem realmente bem assistir. Mas... Eu não gostei de Mulher-Maravilha 1984. Penso que é um filme ruim. Mais que isso: um filme absolutamente esquecível, um equívoco enorme. Aí, de repente, eu assisto à Liga da Justiça do ZACK SNYDER e gosto da Mulher-Maravilha.‌‌‌‌

Eu considero, daqui pra frente, Zack Snyder's Justice League como a sequência oficial de Mulher-Maravilha. E isso é tão doloroso... 🥺😬‌‌‌‌

Brincadeiras à parte, terminar de assistir a esse filme, com uma pausa pra formação de paredão no BBB21, foi mesmo um alívio. Nem tanto pela duração, já que, apesar de tudo, não chega a ser cansativo (mas não se engane, é justamente esse tempo maior que alivia o cansaço). Mas foram anos e anos de uma coisa que eu jamais gostaria que tivesse acontecido.‌‌‌‌

Eu não queria que ter ido assistir às Batman VS. Superman com uma camiseta do Homem de Ferro tivesse virado assunto em grupo de "nerds" no Facebook. Eu não queria que o que nós escrevíamos no falecido JUDAO.com.br tivesse sido levado pro pessoal por algumas das pessoas que tomam decisões dentro da Warner Brasil. Eu não queria ter alguns princípios que não me impediam de falar, outros que não me impediam de transformar tudo isso em piadas e em uma implicância revanchista. Eu não queria que justamente dois filmes ruins fizessem pessoas, sem razão, mas conseguindo atingir a minha maior ferida, questionar meu trabalho.‌‌‌‌


Eu assisti a duas versões de Batman VS. Superman e agora também a duas versões de Liga da Justiça. Escrevi sobre todas elas (as outras você encontra no JUDAO.com.br)... e agora um ciclo se encerra. ‌‌‌‌

Vou continuar fazendo piadinhas? Claro. Vou ficar assustado se o Zack Snyder conseguir tirar do papel A Nascente? Demais, já tou inclusive. Terei sempre um pé atrás com tudo o que ele fizer daqui pra frente, por conta das coisas que ele faz nos seus filmes e refletem no mundo real e que eu, inicialmente, não percebia porque simplesmente achava tudo bonito e fim? Totalmente.‌‌‌‌

Mas só se eu lembrar. Só se isso for muito assunto. Se tudo der certo, eu esqueço disso tudo em algum momento e passo a ter somente o dia em que assisti à Madrugada dos Mortos no cinema como lembrança de algo que ele tenha feito. Se até de Sucker Punch eu consegui esquecer (e olha que eu fui até Los Angeles entrevistá-lo por esse filme, tenho versão limitada em Blu-ray!), então deve dar.

Tomara.