Eu entendo perfeita e completamente quem não faz terapia por falta de oportunidade, seja ela qual for -- da falta de grana à falta de informação. É uma pena e é por isso que eu tou sempre compartilhando no twitter informações sobre atendimentos gratuitos e com os chamados "preços sociais".

Terapia salva vidas. Pode ser difícil encontrar a pessoa certa, o tipo certo de atendimento. Mas salva vidas. Você passa horas na frente de uma pessoa para quem está pagando e ela te faz umas perguntas e diz umas coisas, mas é você, você e todos você que fazem a maior parte do trabalho.

Por isso eu tenho cada vez mais me irritado com quem arranja as desculpas mais esfarrapadas do mundo pra não procurar ajuda. Depois vê? Então vai se foder. Demora pra funcionar? Então vai tomar no meio do cu.

Talvez eu deva falar sobre isso na terapia, hehe, mas vou deixar pra outro momento. Porque hoje eu tive uma das sessões mais pesadas, cheia de sentimentos que eu não sabia que conseguia sentir -- exatamente como foi meu fim de semana. Foram dois dias de merda, mas que pelo menos me fizeram chegar hoje na frente daquela mulher e encontrar um caminho novo.

Um caminho que vai salvar minha vida. Mais uma vez.

Eu só queria falar.
Terapia tá cada vez mais me fazendo olhar pra dentro, onde por mais de 30 anos eu venho me escondendo e não aguento mais.

Eu tenho um espaço em branco na minha vida.

Eu me lembro bem de quando eu era criança -- tipo, RIDICULAMENTE bem, riqueza de detalhes, tudo -- e eu lembro muita coisa depois de adulto, dos vinte e poucos anos pra cá. Os detalhes são menos vívidos, sim, mas no geral eu lembro bem.

Minha adolescência, porém, é com flashes. Momentos, apenas. Um dia, uma coisa, espalhados. Não consigo enxergar minha transição de criança pra adulto, dos aprendizados e experiências que me levaram de um lado pro outro; na minha cabeça é como se eu fosse um moleque que só se preocupava em ir pra escola e de repente tivesse todas e mais algumas responsabilidades do mundo.

E isso, eu descobri nesse fim de semana e reafirmei hoje, é a base da maioria dos meus problemas; e também, claro, a solução deles.

Exatamente assim que funciona.

Eu estava completamente exposto e vulnerável como nunca antes havia estado. Deitado, um dia horroroso lá fora, aquele vento que esfria o suficiente pra fechar a janela, mas não tanto a ponto de mantê-la fechada por muito tempo.

Minha vida estava passando na minha frente. Não a que eu não vivi e não viver, mas justamente aquela que me levou até ali. Tudo o que fiz e o que não fiz, tudo o que me assustou, tudo o que me fez questionar a minha própria existência... Até que eu percebi, pela primeira vez, que aquele ali na cama não era eu. Não era esse eu, pelo menos. Era um eu infantil. Era uma criança. Amedrontada, sem saber o que fazer e querendo apenas que alguém a tirasse dali e a protegesse.

Querendo apenas que alguém me tirasse dali e me protegesse. Como eu quero quase sempre sobre quase tudo.

Como eu infelizmente espero.

É assustador saber que eu tenho reações infantis à vida. É ainda pior entender por quais motivos, razões e circunstâncias eu as tenho -- são coisas que não posso corrigir, apagar e começar de novo. Dói e me cansa, só de pensar, no que o eu adulto vai precisar fazer pra ensinar esse moleque com medo do universo, como ser um adulto ou, pelo menos, assumir as responsabilidades dessa criança que, a cada dia que passa, fica mais e mais traumatizada. Às vezes até pelos mesmos motivos, num ciclo que só se quebra aprendendo lições que, muitas vezes, essa criança evita aprender. Foge.

A vantagem, porém, é que eu cresci em muitos aspectos. De um jeito ou de outro, em uma ou outra situação, eu precisei ser adulto e, entre muitos trancos e infinitos barrancos, até que deu certo em alguns -- um deles foi aceitar a ideia de que eu precisava de ajuda e ir buscá-la. Quer dizer, primeiro eu aceitei a ajuda de quem me dizia que eu precisava de ajuda. Depois eu comecei a tomar remédios e, estável mas com a cabeça parecendo um emaranhado de coisas, procurei a terapia... E assim eu sigo até agora.

Há dois anos, quando isso começou, eu não pensei que chegaria até aqui. Eu, na verdade, tinha certeza de que não estaria aqui nesse momento... Mas olha só. Valeu a pena esperar. E vai valer a pena pra sempre porque, semana após semana (e já foram mais de 100), a terapia me apresenta novos caminhos e eu consigo trilhá-los com a estabilidade que os remédios me proporcionam.

Eu tou na merda, hoje. Afundado. Mas pelo menos hoje eu sorri. Pelo menos hoje eu percebi que eu existo em algum lugar... Eu só preciso me ensinar a ser alguém. E eu vou conseguir.