Eu lembro direitinho da noite em que eu, aproveitando aquele elefantinho de onde saia a pasta de dente, fui lá e escovei os "dentifrícios", como dizia meu pai.

Fui todo animado e contente contar pra ele e pra minha mãe do fato, já que eu não era muito de querer escovar dentes (como toda criança saudável também não é, convenhamos), e eles curtiram bastante a ideia... Mas me fizeram escovar de novo. Segundo eles, duas vezes era melhor que uma.

Mas já naquela época, com três ou quatro anos, eu sabia que eles não tinham acreditado em mim. Eu sabia mesmo, porque eu lembro exatamente do que eu senti naquele dia.


Na sexta série, sei lá eu por qual motivo, razão ou circunstância, minha turma inventou uma história de "dar gelo". Todo dia alguém "tomava um gelo pra aprender" por algo que fez e era ignorado pelo resto do grupo. No dia seguinte, tudo voltava ao normal.

Recreio, quadra, jogando futsal. Eu nunca fui muito... sutil jogando bola e, como um bom FIXO, entrei com uma certa dureza num desses moleques, que eu nem lembro se caiu ou só reclamou. O fato é que era a minha vez de tomar o gelo.

Que durou toda a sexta série.

Acabei sendo "forçado" a me enturmar com outras pessoas, em especial as meninas que sentavam lá na frente. Foi legal, mas foi horrível também, porque além de tudo eu passei a ser "alvo" pela minha aparência (gordo, orelhudo, aparelho) e questionamentos sobre orientação sexual.

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Essa foto tem 22 anos. #TBT

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Sugeri mudar de colégio pros meus pais, mas nem lembro porque decidimos continuar lá naquele, onde fiquei até o fim do ensino médio e, apesar de passar em 4o lugar no vestibular, não ouvi nada -- ao contrário da minha ex que, por entrar em faculdade pública, ganhou faixa na porta da escola.

Foi o equivalente ao "não fez mais nada que a obrigação" que eu ouvia em casa quando tirava uma nota alta.

Em algum momento, uma das meninas da turma do gelo (que era só de meninos, mas você sabe como as coisas funcionam), resolveu me incluir um pouco mais nas coisas e foi daí que surgiu o Borbs -- o apelido, no caso.

A parte boa disso tudo é que o moleque em questão virou desses que defende "intervenção militar" e eu já dei a minha porrada nele. Isso e o fato de que eu talvez fosse essa pessoa também, caso não tivesse sido excluído. Mas isso é outra história.


Meu pai teve um AVC. Era novembro, meu aniversário de 31 anos tava chegando, eu não falava com ele havia um bom tempo -- mais de ano. Mais de anos, se bobear.

No dia seguinte, na hora da visita no hospital, nos acertamos -- não rolou nenhum tipo de conversa, só um "tá tudo bem" e uma conversa curta sobre "como vão as coisas".

Pesquisei tudo sobre AVC que eu podia.

Mais um dia e ele teve uma piora, e a porra do plano de saúde não queria aceitar a transferência para um hospital mais bem aparelhado pro caso dele. Mais pesquisa sobre o AVC, que naquela noite aconteceu de novo.

Lembro até hoje da coitada da médica, menina de tudo, tentando aliviar a gravidade da situação. Ali mesmo, porém, eu já sabia que meu pai não voltaria nunca mais.

Mais um dia e a morte cerebral foi decretada. Meu pai não só não voltaria, ele foi embora.

Com tudo pra resolver -- de decidir pela doação de órgãos a contar a notícia pra minha avó materna, passando por "atender" todo mundo no velório, muitos se surpreendendo com o fato de eu ter barba, imagina -- essa foi a única vez na minha vida em que eu me senti um adulto de verdade. Foi a única vez na minha vida em que eu me senti um ser humano de verdade.

E eu não queria, mas eu sinto falta de ser quem eu fui naqueles dias.