Não que eu tenha sentido qualquer falta -- eu nem sequer percebi que já se foi mais de ano desde que a primeira temporada acabou, ainda tou tentando assimilar Março -- mas uma das coisas que a pandemia tirou da gente esse ano foi a segunda temporada de Euphoria. Eu talvez não tenha sentido falta, também, porque estou mais do que satisfeito com o que vi e tal qual Watchmen e tantas outras séries, aqueles episódios, pra mim, estavam perfeitos.

Tem outras histórias, etc.

Só que estamos falando de entretenimento num mundo capitalista, né? Então precisamos continuar a história, agora indo pra um lugar completamente novo -- o que a COVID-19 não permitiu que acontecesse. Pra "não deixar os fãs na mão", a HBO então resolveu produzir dois episódios especiais que servirão como ligação entre as duas temporadas.

Fuck Anyone Who's Not A Sea Blob, protagonizado pela Jules, vai ser exibido em 24 de Janeiro do ano que vem; Trouble Don't Last Always, focado na Rue, estreou há umas semanas e eu resolvi assistir num dia que eu deveria ter imaginado que não era bom -- porque um dia em que a gente decide de bom grado assistir à Euphoria, como se fosse uma série apenas sobre maquiagens maravilhosas, não pode realmente ser muito legal não.

Pois bem. Assisti. E bateu. Com uma força que eu não imagina que eu pudesse ser atingido.

Muito resumidamente, o tal episódio é um enorme diálogo de quase 1h. É uma conversa, na véspera de Natal, entre a Rue (Zendaya, maravilhosa como sempre, merecedora de todos os Emmys do mundo) e Ali (Colman Domingo, maravilhoso, merecedor de todos os Emmys do mundo) sobre  aguentar e como aguentar ou não aguentar.

Naquele mundo, não existe pandemia e há um vício em drogas -- eu não uso nada e tou em casa há mais de 9 meses... Mas a porrada foi grande. Especialmente porque, pelo menos nesse caso, podemos trocar "vício" por "depressão". São duas doenças, afinal. "A pior parte da doença do vício, além de ter a doença do vício, é que ninguém vê como uma doença". E é mais ou menos isso, mesmo.

Num dos momentos mais pesados da conversa, rola uma coisa sobre ser guerreiro, sobre lutar, sobre missão, propósitos, essas coisas. Não vou entrar em detalhes porque eu não sou nem a Zendaya e nem o Colman Domingo e, pra piorar, tou há meses sem escrever, mas ela meio que termina com um "eu só quero que as pessoas saibam que eu tentei muito ser alguém que eu não consegui".

E sabe... Eu tento pra caralho. PRA CARALHO. Por mais de 30 anos da minha vida eu não fiz ideia do que tava acontecendo mas há três, desde que comecei meus tratamentos (psiquiátrico, primeiro) eu faço questão de deixar isso claro, porque eu não consigo ver futuro em nada.

Eu não consigo ver fim em pandemia, nesse governo, eu não consigo me ver ficando velho, me ver numa casa com uma piscina no meio do mato. Não consigo ver nada. Eu só tento chegar em algum lugar que eu nem sei qual é. Eu tento ser alguém que eu não faço a menor ideia de quem seja. E em cada uma dessas tentativas que eu falho miseravelmente. Em todas elas eu caio no final... e uma hora cansa.

Mas eu tento. Eu tento. E eu tento...

Nos últimos dias eu tenho pensado ininterruptamente sobre possibilidades e opções. Tenho buscado dentro de mim ideias e objetivos que eu gostaria de atingir. Penso em todas as coisas, em qualquer coisa... E não consigo, de maneira nenhuma, encontrar algo que valha a pena ou que se transforme em algo pelo que eu sinta que valha a pena continuar.

Eu literalmente tenho dormido porque não existe outra opção, acordado porque não existe outra opção. Trabalho porque preciso de um lugar pra acordar e dormir e, entre uma coisa e outra, fazer o que for possível pra não pensar nisso tudo. Então eu jogo GTA, jogo até FIFA, numa TV nova que eu mesmo pendurei na parede, sem nunca ter feito nada disso.

Eu vivo num looping. E eu sei que pra ele acabar eu preciso sair dele, mas... Pra onde? Nao consigo pensar em NADA que valha a pena. Absolutamente nada. Nenhum caminho, nenhum desvio.

Não tenho vontade de comer. Não tenho vontade de conversar. Não tenho vontade de ver ninguém. De ter qualquer contato com qualquer pessoa. Tenho me sentido mais inexistente do que nunca. Um negócio "eu só tou aqui porque um dia meu pai e minha mãe me fizeram e me alimentaram", como um planta que não serve pra muita coisa e fica lá no canto.

Porque, repito, não existe QUALQUER razão pra isso. Pra eu continuar.

Tenho me sentido como se ainda estivesse naquele final de 2017, início de 2018, quando eu fui atrás de ajuda. Completamente perdido. Abandonado. Precisando de alguém segurando minha mão e me tirando daqui. Me vejo no mesmo lugar que um dia estive, totalmente vazio e depois absurdamente cheio, mas dessa vez apenas com restos de coisas que um dia estiveram ali. Lixo e o que mais não valeu a pena alguém voltar pra buscar.

Me sinto mais infantil do que nunca, mais "não acredito que não sei lidar com isso". Mais "eu só quero que isso acabe". E tudo, claro, me sentindo também mais cansado.

Eu não sei mais o que fazer. Eu não sei mais como pedir ajuda. Eu não sei mais como ser ajudado. Eu não sei mais como querer ser ajudado. Eu não faço a menor ideia de como eu posso me ajudar se, no fim das contas, eu não quero. :(